Por Alexandre Secco, originalmente publicado pela Análise Editorial
Já percebeu que todo dia aparecem nas mídias e nas redes sociais histórias de advogados envolvidos em negócios de dezenas de milhões, centenas e até bilhões? Até aí tudo bem, poderiam ser apenas histórias de sucesso na profissão. O diabo é que os nomes e as cifras vêm acompanhados de suspeitas. E aí está o X da questão, o busílis, como diz minha avó.
Um advogado foi apontado como o maior apostador do país, com bilhões em apostas, e teve os bens bloqueados. Uma grande influenciadora, advogada, foi presa. Dois advogados são investigados por um golpe com minérios. E tem aquele, o mais famoso de todos, que circulava em carrões e hoje é investigado em três operações. Chega, precisaríamos de mais alguns parágrafos para falar dos casos recentes.
Não posso afirmar que essas pessoas sejam culpadas de alguma coisa, nem que sejam picaretas. Quem tem que dizer isso é a Justiça. Elas têm o direito de se defender por inteiro e de esperar o veredito de quem pode dizer se são culpadas ou inocentes.
Posso dizer, e muita gente percebe, que eles ajudam a formar uma impressão de picaretagem. Tenho visto contratos de advogados que passam da centena de milhões de reais. Contrato de dezenas de milhões parece brincadeira nesse mercado. Picaretas ou não, culpados ou não, esses episódios produzem pelo menos a impressão de que o mercado foi tomado por picaretas.

O Brasil tem cerca de 1,5 milhão de advogados.[1] Posso afirmar com toda a segurança que a maioria absoluta trabalha honestamente e ganha a vida com dignidade. Alguns ralam muito para mantê-la. Ser advogado no Brasil é muito, muito diferente da advocacia que vem aparecendo nos jornais.
É aí que a roda pega. A imagem de meia dúzia produz uma impressão ruim da advocacia inteira. Na pesquisa mais recente da Ipsos sobre confiança em profissões, feita em 31 países, entre eles o Brasil, as pessoas não sabem se confiam nos advogados.[2] A Ipsos mede o saldo entre quem confia e quem desconfia. Médicos têm +43, cientistas +42, professores +37 e militares +16. Os advogados ficam em zero. Quem confia empata com quem desconfia.
Isso é muito ruim, porque o advogado é indispensável ao bom funcionamento da sociedade, sobretudo de uma sociedade democrática. É ele quem tem poderes constituídos para defender o cidadão da fúria e das agressões do Estado. Também dá segurança aos contratos e às negociações e garante os direitos das pessoas nas relações entre particulares e diante do Estado.
Nunca se viu tanto picareta nas páginas dos jornais. O verbo é ver. É meia dúzia de gatos pingados se esfalfando no meio de uma multidão que trabalha com seriedade. Daí não se conclui que hoje haja mais advogados picaretas do que antes, nem que eles sejam muitos. A sucessão de notícias de advogados em jatinhos para lá e para cá, com contratos de milhões e bilhões, prejudica a imagem de que a advocacia precisa para cumprir o papel que as empresas e a sociedade esperam dela. O advogado é indispensável. Por isso a imagem da advocacia também é.
Resta saber o que fazer. Defendo mais vigilância sobre os extremos. A OAB se ocupa de uma lista gigante de picuinhas. Leva ao tribunal de ética o jovem advogado que usou as redes sociais de forma mais heterodoxa, enquanto tem gente saltitando por aí em cima de bilhões. Parece haver algo errado. Seria boa notícia para todo mundo se a instituição que tem o dever de zelar pelo nome da advocacia prestasse mais atenção ao que está acontecendo.
Em rede social, argumento costuma ser julgado por uma linha. Por isso não me custa dizer que este artigo reconhece a importância dos advogados e que a maioria esmagadora da advocacia trabalha com honestidade e dignidade. Meia dúzia de gatos pingados, ao ocupar os jornais todo dia com notícias e cifras escalafobéticas, mancha a imagem de uma categoria inteira, que merece todo o nosso respeito.
Fontes
- [1] OAB, Quadro da Advocacia, 1.510.817 advogados regulares em 03/10/2026.
- [2] Ipsos, Global Trustworthiness Index 2026, 23.537 adultos de 31 países, entrevistas online de 19/06 a 03/07/2026, páginas 3 e 4.
Originalmente publicado pela Análise Editorial